599
Desculpe-me
por não saber
te perdoar.
600
De uma funda grota
da cavidade ocular
é que a lágrima brota.
601
- E acaso conheces
tua língua pátria?
- Yes, yes!
602
No teatro dos dias
interprete a ti
na realidade.
603
A realidade?
Então a realidade não está
nos livros?
604
Lindo,
lindo é teu olhar
sorrindo.
605
Mini universo.
Mini verso
uni.
606
E tanto se entendem,
que quando se encontram
se surpreendem.
607
O futuro – escuro.
O presente – reluzente.
O passado – apagado.
608
Faço hai-kais
e quadras
três por quatro.
609
Se uma flor se angustia,
não enfeita, se enfeia,
nem aroma irradia.
608
Em branco campo
planto
crisântemo.
609
Não confundir Van Gogh com Gogol,
que a melhor peça deste
nunca foi um girassol.
610
Estou cego para canções
e não ouço
paisagens.
611
O coração que me obedeça,
senão volto a sentir
com a cabeça.
612
Inverno – hiberno. Outono – abandono.
Primavera – espera.
Verão – insolação.
613
A vida é vivida e revivida.
A vida toda.
Toda a vida.
614
Amor finda.
A dor cura
a morfina.
615
Ela me chama.
Vamos pra cama
já sem pijama.
616
Translação rotação.
Nós e nossa moviment
ação.
617
Vem passear comigo
por campos de girassóis
e plantações de trigo.
618
Quis ler
meu pensamento,
mas não teve cabeça.
619
Criação da poesia: no princípio
era o ver
so.
620
Sempre estudei com afinco
(com estudo eu não brinco).
Minha nota média é cinco.
621
É lindo lindo lindo:
ela indo ela vindo,
sempre só – rindo.
622
Meu corpo sob(re) o teu
eleva-se - levando-te
ao céu.
623
Há dias em que adias,
em que arredias
dá adios.
624
A arte
em parte
é ar
625
Não mande flores.
Por havê-las colhido
não manterás o jardim florido.
626
Ruim de papo,
até príncipe
vira sapo.
627
Desde a cólica
do nascer,
dói ser.
628
Não tem sentido:
sem ti o tido
é ido.
629
Ousa
ou
usa
630
Céu nenhum, sol nada,
só o que de nós ecoa no oco
do além do além do azul zen.
631
Os quasares
são lilases,
aliás, quase.
632
Frag
men
todo
633
Vaso ruim, se não quebra
se desenfeita,
pois a flor murcha.
634
Á margem do precipício,
Saltar
ou soltar-se?
635
Teu ombro, meu colo,
meu berço, tua cama.
Dormes. Eu sonho.
636
Lance âncora.
Mas saiba: meu mar
não tem fundo.
637
À procura do outro
perca-se no não
achar.
638
Não há limites e me contenho.
Torno margens meus silêncios
mais profundos.
639
O eu: microcosmos
de imensidões
infimínimas.
640
De fato afeto faz falta,
mas tenho tato, sou duro, me trato,
me curo, recebo alta.
641
Quer ver minha mente?
Então apague as luzes
que ela é fosforescente.
642
Em química física matemática e biologia
sou fera. E a sala de aula
é a minha jaula de cada dia.
643
Ad infinitum mergulhei
na espiral verde ondulada
da águazul.
644
O infinito ou é in
ou é finito. Se in não é,
é fini.
645
Nós a desatar-nos
ou a atarmo-nos
sós.
646
Falta farás, mas nem tanto,
nada demais. Aliás,
tanto faz se faltarás.
647
Clone é on,
mas não é
one.
648
Miragem
tem margem?
Sim... de erro.
649
Sempre que brincamos
de esconde-esconde,
te conto onde.
650
Para ser
par,
sê ímpar.
651
O que é, o que é,
contramão
e contrapé?
652
Na infância ficou
um gosto de ontem
com sabor de amanhã.
653
O rio está cheio.
Está por aqui
ó.
654
Se não nos dermos bem,
não nos levemos
a mais.
655
O céu da boca
é transcen
dental.
656
Tomou
dramim
e drumiu
657
No meio do cami
não tinha
o nho.
659
Até escrevê-la
com a página
lida.
660
A aguada da chuva
guarda chuva aguarda
e cai bem qual luva
661
Não sou poeta prolixo
nem dou versos
deluxe
662
Ouça no último volume
meu olhar
e se acostume a ver silêncios.
663
Risquei do mapa
teu estado de espírito.
gora vivo em estado de sítio.
664
Toda manhã o co-co-ri-có
de meu galo
é em sol maior.
665
E eu quase...
Mas passou.
Foi uma fase.
666
Não quero – mallarmélado
un coup de dés –
prefiro um copydesk.
667
Look
my e-
book.
668
Ela se insi
nua a in
vestida.
669
A ordem das letras
não altera
o alfabeto.
670
Go
home
mulher
671
Me
i
os fins.
672
Eu virtual
sou do signo
de pixels.
673
Não,
Nero não era
a fênix.
674
Penis
et
circence.
675
Ela me faz sentir poeta.
Cupido a fim
de lançar a flecha.
676
Amar-me. Desarmar-me.
Amar-te com arte,
sem ar.
677
Sem ti não vôo.
Pássaro de uma só asa
) no centro das costas ( sou.
678
Prisioneiro de si, ouve,
espírito liberto,
a fuga de Bach.
679
Ela é de lua,
ela é de noite,
ela é de mel.
680
Cabeça, tronco,
des-
membro.
681
John, oh! John;
cara,
quanta imaginación.
682
O son(h)o
não me deixa
dorm(ir).
683
A flor.
As mãos da flor.
As pétalas são os dedos.
684
Sois rhythm in blues,
compassado coração
que em som te diluis.
685
Toca pedra vira flor
ou ave leve ou estátua
fincada em solo solidão.
686
Dou-me ao futuro,
até o tempo em que durar
e cair de maduro.
687
O sonho (realmente) acabou.
John Lennon
morreu.
688
Assumo.
Somo.
Sumo.
689
Sai da penumbra
E, ao sol,
assombra.
690
Pelos olhos escorre
líquidas luzes:
lágrimas.
691
Vou só ao cinema.
Minha vida passa na tela.
Já vi este filme (ou será que o vivi?)
692
Suspira a morte do filho,
fazendo ponto cruz
em bordados sem fim.
693
Praia: borda.
O mar, na areia,
transborda.
694
Dentro de mim ela morreu.
Não há túmulo melhor
que o peito meu.
695
Final de tarde,
saudade de antigo beijo.
Arde desejo.
696
Ao azul
coube
o céu
697
Nós, enfim sós.
Fim atroz.
Assim pós.
698
Vivo pobre de sonhos,
mendigando pela realidade
nacos de quase nada.
699
Bom de lábia,
o poliglota só dá beijo
de língua.